Volta na Ilha Grande

Conheço a Ilha Grande há mais de 20 anos e já a visitei inúmeras vezes. Só numa delas fiz trilha (Abraão- Lopes Mendes e Abraão-Pico do Papagaio). Esse ano resolvi fazer a Volta para passar a limpo a Ilha.

A ideia era fazer a volta sozinho, mas acabei me juntando a um grupo de amigos e fomos em quatro (Eu, Nilson, Renata e Nanny).  Resolvemos fazer a volta no sentido anti horário, embora muita gente faça no sentido horário.

Um grupo de conhecidos do Nilson fez a volta uma semana antes e nos deram algumas atualizações. Também pegamos informações de relatos obtidos pela internet e usamos o GPS.

Compartilho com vocês a experiência sem nenhuma pretensão maior que a de uma sugestão para quem quiser ter um ponto de partida para fazer esse lindo trekking.

PRIMEIRO DIA

Deixamos o carro num estacionamento em Conceição de Jacareí pagando uma diária de R$25,00.  De lá compramos o ticket para a lancha que nos levou até Abraão em cerca de 20 min.
Grupo motivado. Tocamos em frente até a praia da feiticeira que não era nossa rota, mas foi para onde o track log nos levou.
Depois de umas subidas e descidas procurando o caminho, finalmente pegamos uma saída à esquerda de quem está indo para a praia e nos achamos.  Á essa hora já chovia.
Achei a primeira subida cansativa talvez por causa do calor (estava de calça é camisa compridas – daqui para frente só caminho de bermuda e camiseta). Depois me acostumei e fomos num ritmo só.
A ideia inicial era ir até saco do céu, mas passamos e fomos até Japariz. Foi nesse trajeto que pegamos chuva torrencial.
Total de 12.800 m.
Como não tem camping e na ilha é proibido acampar na praia negociamos acampar na areia onde ficam as mesas e cadeiras do restaurante Barulho do Mar. O dono nos deixou usar o banheiro da suíte dele.
A areia dessa praia deixa a desejar em limpeza (talvez pelo excesso de pessoas que a visitam durante o dia para almoçar). Se a praia não é a melhor da Ilha foi suficiente para quebrar nosso galho. As roupas molhadas é que não secaram.
Praias do primeiro dia: Abraão, Aqueduto, Praia da Feiticeira, Camiranga, Pereque, Saco do Céu, Praia do Funil e Japariz.

 

SEGUNDO DIA

A meta hoje era passar por Bananal, Matariz, Maguaricetaba, Aripa, Sítio Forte e, finalmente, Araçatiba.
Em Matariz tentamos arranjar algum bar para almoçar sem sucesso. Paramos na próxima praia (Maguaricetaba) numa sombrinha  onde nos viramos com o rango de emergência que levávamos nas nossas mochilas.
Destaque para a vista para a praia de Sítio Forte que é simplesmente deslumbrante.

Faltando uns 5 km para Araçatiba a chuva forte nos pegou outra vez. Era tanta chuva que não tinha mais o que molhar. Os pés eram os que mais sofriam, pois meu tênis outrora impermeável agora era uma peneira. O resultado foram algumas bolhas que maltratavam muito nas descidas.
Mais roupas molhadas (…) putz as de ontem nem secaram ainda.

A descida molhada com muito limo levou todos ao chão por diversas vezes.
Chegamos ao nosso destino ensopados, com bolhas nos pés e assaduras, e fomos procurar onde ficar. Descobrimos que um quarto numa pousada simples sairia pouco mais caro que o camping com café da manhã. Deixamos nosso orgulho de montanhistas de lado e demoramos cerca de 30 milésimos de segundo para decidir pela cama quentinha e pelo banho quente da suíte. Improvisei um varal no quarto e limpinho e refeito me encontrei com o restante do grupo para jantarmos. Comemos uma gostosa pizza acompanhada por umas heineken’s geladas.  Felicidade quase suprema!

Foram pouco mais de 22 km nesse dia.

TERCEIRO DIA
O destino de hoje é  a praia do Aventureiro, passando por Provetá. Agora começa a parte mais bonita.
Como sempre muitas subidas e descidas.
Destaque para a vista da praia de Parnaioca que fica linda quando observada da trilha depois dela.
Seguimos na trilha para Provetá sempre acompanhando os fios de energia que são uma ótima referência do caminho.
Num dado momento ouvimos uma explosão com o som característico de curto-circuito. Mais acima descobrimos a origem. Um dos cabos elétricos que passava pelo chão estava em chamas. Como tudo estava molhado o risco de incêndio era baixo. Avisamos ao corpo de bombeiros e seguimos em frente.
Em Provetá foi uma surpresa ver o tamanho da  vila. Deve ser a maior depois de Abraão e estava sem luz provavelmente pelo que vimos pouco antes.
Paramos no único bar aberto e depois de nos reabastecermos com água e gatorade seguimos para o Aventureiro.
Subida íngreme e muito calor.
Mais acima como já estava sendo a nossa rotina a chuva nos pegou.
Chegamos a Aventureiro (praia linda) e ficamos no camping do Luiz que tem uma boa infraestrutura. Barracas montadas.  Fomos para o bar do camping  tomar umas heineken’s e caipirinhas . Lindo ver a tempestade se aproximando! Putz tempestade? Nem deu para secar as roupas que já estavam com cheiro de cachorro morto.
Dessa vez o aguaceiro foi grande. Um tremendo pé d’água mesmo que assistimos do restaurante olhando para as nossas barracas e torcendo para aguentarem o tranco. Um dos raios deve ter caído a uns 200m de nós.
Barracas secas graças a Deus e roupas molhadas infelizmente. Nos recolhemos para descansar. Amanhã iremos para Parnaioca.

QUARTO DIA

Começamos a trilha pela areia, mas a maré estava cheia e tivemos que contornar a praia do Demo pela trilha. Não sei a origem do nome Demo, mas logo depois vem a tal pedra do Demo e aí sim descobri o porquê do nome.
Trata-se de um penhasco bem inclinado com uma aderência muito ruim que ficou muito pior com as chuvas diárias que vinham caindo. Várias línguas de água escorrendo pela pedra com muito limo. Quando li os relatos sobre o local achei que era sensacionalismo, mas chegando lá confesso que achei até pouco o que falaram sobre os riscos. Qualquer pisada no lugar errado poderia te levar a uma queda de uns dez metros para cima de pedras em alguns lugares ou com sorte para o mar que estourava forte contra os mariscos.
Para quem está acostumado dá para ir com cuidado. Mas teve gente que passou muito veneno para transpor esse trecho. Depois soubemos que tem uma trilha para evitar esse trecho. Recomendo fortemente que se opte por ela. Teria evitado algumas lágrimas no nosso grupo (rsrs).

Chegamos à praia do Sul e cerca de 3,5 km de caminhada por suas areias brancas nos levaram a uma trilha que contorna os penhascos que separa as praias do Sul e do Leste.
Essa trilha chega num mangue por onde passa um rio abastecido pelos lagos do centro da Ilha. Pelo que li você o atravessa com água pelo tornozelo. Mas não foi o que vimos.
Devido à tempestade do dia anterior o rio tinha uma forte corredeira que te cobria em certos pontos.
Nem todos do nosso grupo nadavam, mas voltar pelo maldito penhasco não era uma opção. Depois de atravessar o canal por vários lugares acabei encontrando um caminho mais raso para passarmos em segurança. Deve-se ter cuidado com as pedras submersas com mariscos, pois cortei feio o pé e teria levado uns bons pontos se tivesse sido possível.
Agora era caminhar mais dois km pela praia do Leste até a próxima trilha.
Chegando nela percorremos mais cerca de 2 km de subida numa trilha um pouco fechada para chegar a Parnaioca. Que praia linda!
A trilha acabava num rio que tivemos que atravessar com água na altura do peito e as cargueiras na cabeça.
Aproveitamos para descansar curtindo um pouco esse trecho do rio.  Daí caminhamos mais alguns metros até o camping do seu Sílvio. Seu Sílvio é um senhor de 75 anos nascido na Ilha e pra lá de hospitaleiro. O camping do seu Sílvio não serve refeições, mas tem uma cozinha com o necessário para fazer um rango simples. Próximo ao camping do seu Sílvio você costuma ter dois outros campings que fornecem refeição desde que você avise com antecedência. Porém achei que o camping do seu Silvio tem uma estrutura melhor.
Ficamos dois dias nessa linda praia.

SEXTO DIA

Nesse dia seguimos para Dois Rios em uma trilha relativamente rápida. Chegando lá fomos recebidos pela simpática Dona Teresa que possui um restaurante onde é servida uma gostosa comida caseira. Depois do almoço deixamos as mochilas no bar e fizemos um bate e volta em Cachadaço. Essa é, na minha opinião, a praia mais bonita da Ilha, porém como em Dois Rios é proibido acampar nela. Depois de curtir a água cristalina e dar o tradicional salto do penhasco que cerca a praia voltamos a Dois Rios, pegamos as cargueiras e seguimos para Abraão. Chegamos no fim da tarde exaustos, mas felizes. Pizza , heineken, banho e cama completaram a nossa felicidade.

Cláudio Vital

(CBM/2016 e CAE/2016)

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