Marizel

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A jovem alpinista da Pedra da Gávea, um minuto antes da queda.

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Estava escuro quando Marizel se levantou naquele sábado. Ainda era muito cedo, mas ela não conseguia dormir direito. Desde a véspera que a perspectiva de escalar a Pedra da Gávea com Gegê a mantinha excitada. E aquela estranha lenda? Seria verdade que a pedra era uma esfinge construída pelos fenícios para proteger e ocultar um túmulo?

Maria Zelina Reis Irigaray (Marizel), de 17 anos, e Geraldo Barbosa Pessoa (Gegê), de 18, haviam programado um bom fim de semana. Sócios do Centro Excursionista Rio de Janeiro, eles já tinham alguma prática de montanhismo. Marizel participara até de excursões à Serra dos Órgãos e Itatiaia.

Bem cedo, Gegê e Marizel chegaram à trilha que leva ao alto da Pedra da Gávea. Num certo ponto o caminho oferece duas opções: seguir em frente ou entrar à esquerda, iniciando uma escalada horizontal. Eles optaram pela esquerda. Marizel não sabia, mas naquele momento fazia sua última opção. Teria que seguir pela Passagem dos Olhos, que não apresenta maiores dificuldades para montanhistas experimentados, pois nesse local existem grampos cravados na pedra e até mesmo cabos de aço. Mas, por ser uma escalada horizontal, envolve risco se for feita por uma cordada (dois ou mais montanhistas utilizando a mesma corda) de duas pessoas. Se uma delas cai, fatalmente ficará pendurada, sujeita a um perigoso movimento pendular. E a outra pouco poderá fazer para salvá-la O caminho que Marizel e Gegê escolheram passa por baixo dos “dois olhos” e termina à direita da pedra. Eles só iriam até o Olho Direito, pois sabiam que desse local em diante o cabo de aço não apresentava condições de segurança. Está até interditado pela Federação de Montanhismo.

Gegê e Marizel já estavam no chapadão da Esfinge, a 850 metros de altura. Gegê ia à frente. Quando Marizel se encontrava abaixo do Olho Esquerdo, caiu, ficando pendurada na corda de segurança. Porque caiu, ainda é um mistério. Depois do violento tranco, quando a corda se esticou, Marizel ficou balançando de um lado para outro, empurrada pelo forte vento, com seu corpo batendo na pedra.

Hesitante, na sua condição de montanhista inexperiente, Marizel agarra-se com dificuldade à superfície da irregular Pedra da Gávea. Segundos depois disso, cairia.
No fim da tarde de sábado, o guia-escalador Cláudio Leuzinger chegou em casa, depois de uma cansativa escalada a Pão de Açúcar. Funcionário do Banco do Brasil, estudante de Direito e sócio do mesmo clube de Marizel e Gegê, ele é o montanhista líder do grupo do Corpo de Salvamento da Federação de Montanhismo.

Ainda com o equipamento nos ombros, recebeu um recado: devia dirigir-se imediatamente para a Pedra da Gávea, onde acontecera um acidente de proporções então desconhecidas. “Até aquele momento”, diz ele, “e mesmo quando dirigia meu carro para o local do acidente, eu estava tranqüilo. O Corpo de Salvamento é acionado, na maioria das vezes, para resolver problemas de grupos inexperientes que se aventuram a escalar um ou outro paredão. As duas últimas chamadas que recebemos, por exemplo, não passavam de rebates falsos. No sábado, logo que chegamos a São Conrado, vi um carro do Corpo de Bombeiros e grande movimentação de pessoas. Bem, pensei, desta vez o negócio é sério. Subimos até a Praça da Bandeira (uma clareira, no primeiro platô) e dali, quase correndo, fomos até o Caneco (ponto base para a escalada até a Passagem dos Olhos, onde ocorreu o acidente).

No Caneco, Cláudio procurou um dos bombeiros. Identificou-se como membro do Corpo de Salvamento e pediu informações. “O bombeiro explicou-me as circunstâncias em que ocorreu o acidente. Desde as duas horas da tarde, segundo ele, uma menina estava pendurada à beira do abismo, enquanto um rapaz permanecia no Olho Esquerdo, sem condições de descer. Só nesse momento é que ouvi os nomes de Geraldo e Marizel, ambos meus amigos. Fiquei estarrecido, mas o momento não comportava emoções. Pelo tempo em que ela estava naquela situação, calculei que só por milagre poderia estar viva.”

Cláudio e Reinaldo, dois dos experientes guias do Corpo de Salvamento, formaram a primeira cordada. Depois de um rápido exame do local e da posição em que se encontravam Marizel e Gegê – com base nas informações dom bombeiros e no seu profundo conhecimento daquele caminho – , Cláudio planejou uma operação de resgate. Àquela altura, a visibilidade era quase nula. “Nosso objetivo era atingir o local da queda e, com o auxílio de cordas, descer Marizel até um ponto onde os bombeiros pudessem chegar, através de uma picada no mato. Começamos a subir, praticamente na base do tato, pois já eram 21 horas e não se enxergava nada. Quando atingimos os grampos logo abaixo do Olho Esquerdo, pude avaliar melhor a situação. A corda de Marizel estava costurada (presa) a três grampos e pendia a uma distância de uns 20 metros do local onde nos encontrávamos. Gegê estava na caverna do Olho Esquerdo, poucos metros acima de nós. Falei com ele, de longe, perguntei se estava tudo bem e pedi para que ficasse tranqüilo, nós chegaríamos lá.

Marizel já está pendurada pela cintura quando Geraldo, poucos metros acima, tenta inutilmente resgatá-la.
Começamos a montar um aparelho de descida (um sistema de argolas também chamadas de mosquetões). Vimos que a corda que sustentava Marizel não era suficiente para baixa-la até a trilha que os bombeiros haviam aberto. Isso complicava as coisas, pois teríamos que emendara corda, o que criaria problemas à sua passagem pelos mosquetões.

Reinaldo prendeu-se então a um grampo superior e Cláudio desceu cerca de cinco metros em direção à jovem. Nesse momento teve início uma das mais dramáticas fases d resgate. Numa posição extremamente perigosa, Cláudio apoiou-se precariamente na parte lateral d Nariz do Imperador e suspendeu o corpo de Marizel, para que Cláudio, com a corda frouxa, pudesse montar o aparelho de descida. Cláudio manteve o corpo de Marizel assim por três minutos. “Eu estava inclinado num dos lados do Nariz, com a corda de Marizel presa aos ombros. De vez em quando, o forte vento que soprava no local ameaçava me jogar para fora da pedra. Houve um momento em que pensei que também cairia. Logo que Reinaldo amarrou a corda, eu me encostei no paredão e desmaiei. Acho que fui além de minhas forças. Só não caí porque estava preso pela corda aos grampos.”

Pouco depois chegava a segunda cordada de resgate, formada por José Prata e Helton, também amigos de Marizéu e Gegê. O corpo da Marizel foi baixado lentamente pois a passagem do nó nos mosquetões era supertrabalhosa. A operação se estendeu por três horas.

Depois, os quatro integrantes da equipe de salvamento escalaram a pedra em direção ao Olho Esquerdo, onde estava Geraldo. “O Capitão Silva, do Corpo de Bombeiros, e um rapaz (não me lembro o nome) que conhecia o cabo de aço do lado direito da pedra já estavam com o Geraldo. O bombeiro e o rapaz voltaram pelo mesmo caminho. Nós quatro formamos uma cordada com Geraldo. Fizemos com que ele ficasse no meio e orientamos sua descida o tempo todo. Quando chegamos a Caneco, com a missão cumprida, eram três horas da madrugada.”

Por cerca de meia hora, Geraldo tentou salvar Marizel, orientado por um grupo de montanhistas que estava mais abaixo. De início (foto da esquerda), a jovem ainda ajudava um pouco, mas ao final parece que desmaiou.
A operação-resgate, que Cláudio dirigiu, após uma escalada ao Pão de Açúcar, o deixara completamente extenuado. “No Caneco, não sabia bem o que estava fazendo. Minha única preocupação naquele momento era a de como dirigir meu carro até em casa. Não vi mais nada, não me lembro do que aconteceu embaixo. Saí dali carregado por amigos.”
Passados os piores momentos, Cláudio faz uma advertência: ”Em 40 anos, ocorreram cinco mortes de montanhistas ligados a clubes. Essa estatística, embora trágica, demonstra que o treinamento ministrado pelos clubes é satisfatório. É um índice baixo, de considerarmos que o montanhismo é um esporte perigoso. Deve ser praticado exclusivamente em clube, com excursões em grupo, acompanhados por pessoas preparadas e guias experientes. Na minha opinião, o que aconteceu a Geraldo e Marizel foi um acidente do qual ninguém tem culpa. Apenas um acidente, uma tragédia. Ninguém pode apontar, honestamente, um responsável pela morte de Marizel”.

Filho adotivo do advogado João Batista Soares, Geraldo estuda no Colégio Santo Inácio. Seus colegas do Centro Excursionista do Rio de Janeiro e os vizinhos das Laranjeiras o consideram um bom companheiro.

Uma jovem bonita e alegre. Na parede do seu quarto, um cartaz infantil com os dizeres, em inglês: ”Um bom amigo nunca deixa você na mão.” Depois de resgatado, Geraldo desapareceu por quase quatro dias. Só na quarta-feira compareceu à 15ª DP para depor.
Naquela tarde de quarta-feira, Geraldo depôs da 15ª DP, no Jardim Botânico, depois de ser mantido afastado da imprensa por quase quatro dias. Consta de seu depoimento: “Geraldo Batista Soares é filiado ao Centro Excursionista do Rio de Janeiro há cerca de dois anos, já tendo participado de 65 escaladas, inclusive das de 5° grau. O material que ele usou no sábado é de primeira qualidade e o prescrito pelo clube. “A partir desse trecho, Geraldo passa a relatar: “Por volta das oito horas do sábado, dia 15, encontrei-me com Marizel e mais cinco companheiro no Bar Bem. Os cinco participaram apenas da caminhada, não da escalada. O clube não foi comunicado da escalada, mas extra-oficialmente vários de seus membros tomaram conhecimento. Por volta das 12 horas chegamos ao Caneco, o local mais próximo da Pedra. Tínhamos uma corda de 60 metros. Como a corda estava em dupla (dobrada) só pude avançar 30 metros, trazendo depois Marizel até este ponto. O calor era intenso junto à pedra. Passamos à segunda etapa. Avancei mais 30 metros. Nesse momento, a rocha – que formava um ângulo – impediu-me de ver Marizel. Parei e preparei tudo para traze-la até onde eu estava. Nesse momento ouvi Marizel dizer: Vou cair! Ouvi exclamações mais abaixo e presumi que Marizel tivesse caído mesmo, ficando presa pela corda de segurança. Prendi a corda onde estava e caminhei com cuidado para onde ela estava, Marizel passou a orientar-me, auxiliada por outras pessoas que estavam mais abaixo. Marizel informou-me que havia um platô logo abaixo, próximo de onde estava, em que ela poderia ficar mais tranqüila. Voltei, soltei o nó de minha corda e desci até atingir um platô. Vi que não havia o exato platô indicado por Marizel, mas apenas uma pequena rampa onde ela poderia descansar e esperar por socorro. Desci mais a corda de Marizel, toda a que dispunha, inclusive a minha de segurança. Prendi a corda num grampo, deixando Marizel na rampa. Não tinha uma visão nítida de onde ela estava, pois havia uma lombada entre nós. Daí fui para o Olho Direito aguardar o socorro. Subi sem meu material de segurança, que ficara todo com Marizel para sua segurança. Ela estava cerca de 25 metros de distância. Acho que Marizel desmaiou, pois depois de determinado momento parou de me orientar. Acho que ela caiu por volta de duas e meia. Infelizmente, quando chegou o Corpo de Salvamento, ela já estava morta. Marizel não era uma principiante, fizera escaladas de grau superior ao da Pedra da Gávea, como o Mirante Dona Marta e o Paredão Unicec. Acho que foi vítima de uma intermação ou desidratação, o que diminuiu sua resistência física.”

Bem diferente é o registro da ocorrência feito pelo Capitão Paulo César Amêndola de Souza, da Polícia Militar, lotado no Serviço de Recursos Especiais do DGIE. Segundo o registro, Marizel e Geraldo seriam do Grupo de Expedição Fenícios, da Academia Leopoldinense de Judô. Marizel teria morrido em decorrência de uma queda de grande altura, “após o rompimento da corda de sustentação” (?). O capitão Amêndola é amigo de ambas as famílias.

Reportagem de José Esmeraldo Gonçalves e Lia Hermont

Marisa já caiu no mesmo lugar que Marizel. Ela acha que a jovem morreu por ser corajosa e inexperiente: fez a travessia sem o equipamento necessário. “Essa escalada exige um grupo mínimo de três pessoas”, diz ela.
A montanhista Marisa Aguiar caiu há cinco anos no mesmo local da Pedra da Gávea em que Marizel morreu. Com mais de 10 anos de experiência na época, ela sobreviveu para contar a história: “Marizel morreu por ter sido muito corajosa. Quando caí, um pouco mais perto do ponto conhecido como Olho Direito do Imperador, estava bem mais protegida. Tinha dois guias, meu marido e um amigo. Sabia que a via (local por onde se deve passar, trilha) era mais perigosa do que difícil. Sempre que achava que ia cair, avisava: “Vou cair”. Até que numa barriga (lombada), perdi o equilíbrio e caí mesmo. Gritei: “Estou caindo”. E caí. A sensação que a gente tem é de vazio, depois, de um soco. A corda presa na cintura passa para cima e comprime as costelas. É uma dor horrível.”

O preço da inexperiência

Marisa caiu cerca de um metro, e quase desmaiou.

“Imagino que Marizel, ao cair de uns três metros (é o que calculo), tenha sentido uma dor bem maior. Inexperiente, não deve ter segurado a corda, preferindo com vez disso soltá-la para amortecer o choque com a pedra.”

Segundo Marisa, uma pessoa que não tem experiência quase sempre entra em pânico. “Ela deve ter se sentido só e desamparada, pois sabia que o rapaz não era ta experiente, e não havia ninguém atrás para ajudá-la.”

Antônio Aguiar, o marido de Marisa, é um dos pioneiros em escaladas na Pedra da Gávea, principalmente pela via do Olho do Imperador. Diante das fotos da subida de Geraldo e Marizel, ele fala do acidente. É um depoimento de quem, segundo os entendidos, poderia escalar o local de olhos fechados.

A morte por asfixia

Essa via da Pedra da Gávea é muito difícil mas não é perigosa. Dá até para posar para as fotos.
“Pelas fotos, pode-se ver que os dois eram inexperientes. Há ganchos nas rochas, seguindo a via, que servem para apoiar os lagartixas (montanhistas). A gente costura os ganchos, usando mosquetões. Assim, todos os componentes de uma cordada ficam seguros, e se um cai, forma um ângulo, facilitando o seu salvamento pelos guias ou pelas pessoas que estejam ao seu lado. Tenho a impressão de que a corda dos dois não estava costurada, senão ela não daria um mergulho tão grande, pois os ganchos ficam a uma distância de dois metros, mais ou menos, um do outro.”

Antônio explica que esse tipo de escalada exige pelo menos três pessoas. Dois, só com muita experiência, e mesmo assim é arriscado. Quando se trata de uma pessoa inexperiente, o guia procura sempre fazer uma espécie de cadeira com corda, para evitar o soco estrangulador da queda. Isso quando não se dispõe de equipamento especializado, que é muito difícil de encontrar no Brasil.

“Pelo que vi, a garota estava com uma corda amarrada na cintura, o que pode ter apressado ou mesmo causado a sua morte. Na verdade, Marizel morreu por asfixia, devido à pressão da corda em suas costelas.

Reportagem de José Esmeraldo Gonçalves e Lia Hermont

Matéria retirada da revista Fatos e Fotos Gente, n° 745 – ano XV de 1 de dezembro de 1975

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