{"id":741,"date":"2012-12-19T13:39:30","date_gmt":"2012-12-19T13:39:30","guid":{"rendered":"http:\/\/guanabara.org.br\/?page_id=741"},"modified":"2012-12-19T13:51:07","modified_gmt":"2012-12-19T13:51:07","slug":"marizel","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/guanabara.org.br\/index.php\/ceg-2\/621-2\/marizel\/","title":{"rendered":"Marizel"},"content":{"rendered":"<p><center><a href=\"http:\/\/guanabara.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/20121219-114139.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full\" alt=\"20121219-114139.jpg\" src=\"http:\/\/guanabara.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/20121219-114139.jpg\" \/><\/a><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A jovem alpinista da Pedra da G\u00e1vea, um minuto antes da queda.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.guanabara.org.br\/marizel\/marizel.pdf\">clique aqui para acessar a vers\u00e3o para impress\u00e3o em PDF<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava escuro quando Marizel se levantou naquele s\u00e1bado. Ainda era muito cedo, mas ela n\u00e3o conseguia dormir direito. Desde a v\u00e9spera que a perspectiva de escalar a Pedra da G\u00e1vea com Geg\u00ea a mantinha excitada. E aquela estranha lenda? Seria verdade que a pedra era uma esfinge constru\u00edda pelos fen\u00edcios para proteger e ocultar um t\u00famulo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Zelina Reis Irigaray (Marizel), de 17 anos, e Geraldo Barbosa Pessoa (Geg\u00ea), de 18, haviam programado um bom fim de semana. S\u00f3cios do Centro Excursionista Rio de Janeiro, eles j\u00e1 tinham alguma pr\u00e1tica de montanhismo. Marizel participara at\u00e9 de excurs\u00f5es \u00e0 Serra dos \u00d3rg\u00e3os e Itatiaia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem cedo, Geg\u00ea e Marizel chegaram \u00e0 trilha que leva ao alto da Pedra da G\u00e1vea. Num certo ponto o caminho oferece duas op\u00e7\u00f5es: seguir em frente ou entrar \u00e0 esquerda, iniciando uma escalada horizontal. Eles optaram pela esquerda. Marizel n\u00e3o sabia, mas naquele momento fazia sua \u00faltima op\u00e7\u00e3o. Teria que seguir pela Passagem dos Olhos, que n\u00e3o apresenta maiores dificuldades para montanhistas experimentados, pois nesse local existem grampos cravados na pedra e at\u00e9 mesmo cabos de a\u00e7o. Mas, por ser uma escalada horizontal, envolve risco se for feita por uma cordada (dois ou mais montanhistas utilizando a mesma corda) de duas pessoas. Se uma delas cai, fatalmente ficar\u00e1 pendurada, sujeita a um perigoso movimento pendular. E a outra pouco poder\u00e1 fazer para salv\u00e1-la O caminho que Marizel e Geg\u00ea escolheram passa por baixo dos \u201cdois olhos\u201d e termina \u00e0 direita da pedra. Eles s\u00f3 iriam at\u00e9 o Olho Direito, pois sabiam que desse local em diante o cabo de a\u00e7o n\u00e3o apresentava condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. Est\u00e1 at\u00e9 interditado pela Federa\u00e7\u00e3o de Montanhismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geg\u00ea e Marizel j\u00e1 estavam no chapad\u00e3o da Esfinge, a 850 metros de altura. Geg\u00ea ia \u00e0 frente. Quando Marizel se encontrava abaixo do Olho Esquerdo, caiu, ficando pendurada na corda de seguran\u00e7a. Porque caiu, ainda \u00e9 um mist\u00e9rio. Depois do violento tranco, quando a corda se esticou, Marizel ficou balan\u00e7ando de um lado para outro, empurrada pelo forte vento, com seu corpo batendo na pedra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hesitante, na sua condi\u00e7\u00e3o de montanhista inexperiente, Marizel agarra-se com dificuldade \u00e0 superf\u00edcie da irregular Pedra da G\u00e1vea. Segundos depois disso, cairia.<br \/>\nNo fim da tarde de s\u00e1bado, o guia-escalador Cl\u00e1udio Leuzinger chegou em casa, depois de uma cansativa escalada a P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. Funcion\u00e1rio do Banco do Brasil, estudante de Direito e s\u00f3cio do mesmo clube de Marizel e Geg\u00ea, ele \u00e9 o montanhista l\u00edder do grupo do Corpo de Salvamento da Federa\u00e7\u00e3o de Montanhismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda com o equipamento nos ombros, recebeu um recado: devia dirigir-se imediatamente para a Pedra da G\u00e1vea, onde acontecera um acidente de propor\u00e7\u00f5es ent\u00e3o desconhecidas. \u201cAt\u00e9 aquele momento\u201d, diz ele, \u201ce mesmo quando dirigia meu carro para o local do acidente, eu estava tranq\u00fcilo. O Corpo de Salvamento \u00e9 acionado, na maioria das vezes, para resolver problemas de grupos inexperientes que se aventuram a escalar um ou outro pared\u00e3o. As duas \u00faltimas chamadas que recebemos, por exemplo, n\u00e3o passavam de rebates falsos. No s\u00e1bado, logo que chegamos a S\u00e3o Conrado, vi um carro do Corpo de Bombeiros e grande movimenta\u00e7\u00e3o de pessoas. Bem, pensei, desta vez o neg\u00f3cio \u00e9 s\u00e9rio. Subimos at\u00e9 a Pra\u00e7a da Bandeira (uma clareira, no primeiro plat\u00f4) e dali, quase correndo, fomos at\u00e9 o Caneco (ponto base para a escalada at\u00e9 a Passagem dos Olhos, onde ocorreu o acidente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Caneco, Cl\u00e1udio procurou um dos bombeiros. Identificou-se como membro do Corpo de Salvamento e pediu informa\u00e7\u00f5es. \u201cO bombeiro explicou-me as circunst\u00e2ncias em que ocorreu o acidente. Desde as duas horas da tarde, segundo ele, uma menina estava pendurada \u00e0 beira do abismo, enquanto um rapaz permanecia no Olho Esquerdo, sem condi\u00e7\u00f5es de descer. S\u00f3 nesse momento \u00e9 que ouvi os nomes de Geraldo e Marizel, ambos meus amigos. Fiquei estarrecido, mas o momento n\u00e3o comportava emo\u00e7\u00f5es. Pelo tempo em que ela estava naquela situa\u00e7\u00e3o, calculei que s\u00f3 por milagre poderia estar viva.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cl\u00e1udio e Reinaldo, dois dos experientes guias do Corpo de Salvamento, formaram a primeira cordada. Depois de um r\u00e1pido exame do local e da posi\u00e7\u00e3o em que se encontravam Marizel e Geg\u00ea \u2013 com base nas informa\u00e7\u00f5es dom bombeiros e no seu profundo conhecimento daquele caminho &#8211; , Cl\u00e1udio planejou uma opera\u00e7\u00e3o de resgate. \u00c0quela altura, a visibilidade era quase nula. \u201cNosso objetivo era atingir o local da queda e, com o aux\u00edlio de cordas, descer Marizel at\u00e9 um ponto onde os bombeiros pudessem chegar, atrav\u00e9s de uma picada no mato. Come\u00e7amos a subir, praticamente na base do tato, pois j\u00e1 eram 21 horas e n\u00e3o se enxergava nada. Quando atingimos os grampos logo abaixo do Olho Esquerdo, pude avaliar melhor a situa\u00e7\u00e3o. A corda de Marizel estava costurada (presa) a tr\u00eas grampos e pendia a uma dist\u00e2ncia de uns 20 metros do local onde nos encontr\u00e1vamos. Geg\u00ea estava na caverna do Olho Esquerdo, poucos metros acima de n\u00f3s. Falei com ele, de longe, perguntei se estava tudo bem e pedi para que ficasse tranq\u00fcilo, n\u00f3s chegar\u00edamos l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marizel j\u00e1 est\u00e1 pendurada pela cintura quando Geraldo, poucos metros acima, tenta inutilmente resgat\u00e1-la.<br \/>\nCome\u00e7amos a montar um aparelho de descida (um sistema de argolas tamb\u00e9m chamadas de mosquet\u00f5es). Vimos que a corda que sustentava Marizel n\u00e3o era suficiente para baixa-la at\u00e9 a trilha que os bombeiros haviam aberto. Isso complicava as coisas, pois ter\u00edamos que emendara corda, o que criaria problemas \u00e0 sua passagem pelos mosquet\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reinaldo prendeu-se ent\u00e3o a um grampo superior e Cl\u00e1udio desceu cerca de cinco metros em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 jovem. Nesse momento teve in\u00edcio uma das mais dram\u00e1ticas fases d resgate. Numa posi\u00e7\u00e3o extremamente perigosa, Cl\u00e1udio apoiou-se precariamente na parte lateral d Nariz do Imperador e suspendeu o corpo de Marizel, para que Cl\u00e1udio, com a corda frouxa, pudesse montar o aparelho de descida. Cl\u00e1udio manteve o corpo de Marizel assim por tr\u00eas minutos. \u201cEu estava inclinado num dos lados do Nariz, com a corda de Marizel presa aos ombros. De vez em quando, o forte vento que soprava no local amea\u00e7ava me jogar para fora da pedra. Houve um momento em que pensei que tamb\u00e9m cairia. Logo que Reinaldo amarrou a corda, eu me encostei no pared\u00e3o e desmaiei. Acho que fui al\u00e9m de minhas for\u00e7as. S\u00f3 n\u00e3o ca\u00ed porque estava preso pela corda aos grampos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco depois chegava a segunda cordada de resgate, formada por Jos\u00e9 Prata e Helton, tamb\u00e9m amigos de Mariz\u00e9u e Geg\u00ea. O corpo da Marizel foi baixado lentamente pois a passagem do n\u00f3 nos mosquet\u00f5es era supertrabalhosa. A opera\u00e7\u00e3o se estendeu por tr\u00eas horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, os quatro integrantes da equipe de salvamento escalaram a pedra em dire\u00e7\u00e3o ao Olho Esquerdo, onde estava Geraldo. \u201cO Capit\u00e3o Silva, do Corpo de Bombeiros, e um rapaz (n\u00e3o me lembro o nome) que conhecia o cabo de a\u00e7o do lado direito da pedra j\u00e1 estavam com o Geraldo. O bombeiro e o rapaz voltaram pelo mesmo caminho. N\u00f3s quatro formamos uma cordada com Geraldo. Fizemos com que ele ficasse no meio e orientamos sua descida o tempo todo. Quando chegamos a Caneco, com a miss\u00e3o cumprida, eram tr\u00eas horas da madrugada.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por cerca de meia hora, Geraldo tentou salvar Marizel, orientado por um grupo de montanhistas que estava mais abaixo. De in\u00edcio (foto da esquerda), a jovem ainda ajudava um pouco, mas ao final parece que desmaiou.<br \/>\nA opera\u00e7\u00e3o-resgate, que Cl\u00e1udio dirigiu, ap\u00f3s uma escalada ao P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, o deixara completamente extenuado. \u201cNo Caneco, n\u00e3o sabia bem o que estava fazendo. Minha \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o naquele momento era a de como dirigir meu carro at\u00e9 em casa. N\u00e3o vi mais nada, n\u00e3o me lembro do que aconteceu embaixo. Sa\u00ed dali carregado por amigos.\u201d<br \/>\nPassados os piores momentos, Cl\u00e1udio faz uma advert\u00eancia: \u201dEm 40 anos, ocorreram cinco mortes de montanhistas ligados a clubes. Essa estat\u00edstica, embora tr\u00e1gica, demonstra que o treinamento ministrado pelos clubes \u00e9 satisfat\u00f3rio. \u00c9 um \u00edndice baixo, de considerarmos que o montanhismo \u00e9 um esporte perigoso. Deve ser praticado exclusivamente em clube, com excurs\u00f5es em grupo, acompanhados por pessoas preparadas e guias experientes. Na minha opini\u00e3o, o que aconteceu a Geraldo e Marizel foi um acidente do qual ningu\u00e9m tem culpa. Apenas um acidente, uma trag\u00e9dia. Ningu\u00e9m pode apontar, honestamente, um respons\u00e1vel pela morte de Marizel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho adotivo do advogado Jo\u00e3o Batista Soares, Geraldo estuda no Col\u00e9gio Santo In\u00e1cio. Seus colegas do Centro Excursionista do Rio de Janeiro e os vizinhos das Laranjeiras o consideram um bom companheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma jovem bonita e alegre. Na parede do seu quarto, um cartaz infantil com os dizeres, em ingl\u00eas: \u201dUm bom amigo nunca deixa voc\u00ea na m\u00e3o.\u201d Depois de resgatado, Geraldo desapareceu por quase quatro dias. S\u00f3 na quarta-feira compareceu \u00e0 15\u00aa DP para depor.<br \/>\nNaquela tarde de quarta-feira, Geraldo dep\u00f4s da 15\u00aa DP, no Jardim Bot\u00e2nico, depois de ser mantido afastado da imprensa por quase quatro dias. Consta de seu depoimento: \u201cGeraldo Batista Soares \u00e9 filiado ao Centro Excursionista do Rio de Janeiro h\u00e1 cerca de dois anos, j\u00e1 tendo participado de 65 escaladas, inclusive das de 5\u00b0 grau. O material que ele usou no s\u00e1bado \u00e9 de primeira qualidade e o prescrito pelo clube. \u201cA partir desse trecho, Geraldo passa a relatar: \u201cPor volta das oito horas do s\u00e1bado, dia 15, encontrei-me com Marizel e mais cinco companheiro no Bar Bem. Os cinco participaram apenas da caminhada, n\u00e3o da escalada. O clube n\u00e3o foi comunicado da escalada, mas extra-oficialmente v\u00e1rios de seus membros tomaram conhecimento. Por volta das 12 horas chegamos ao Caneco, o local mais pr\u00f3ximo da Pedra. T\u00ednhamos uma corda de 60 metros. Como a corda estava em dupla (dobrada) s\u00f3 pude avan\u00e7ar 30 metros, trazendo depois Marizel at\u00e9 este ponto. O calor era intenso junto \u00e0 pedra. Passamos \u00e0 segunda etapa. Avancei mais 30 metros. Nesse momento, a rocha \u2013 que formava um \u00e2ngulo \u2013 impediu-me de ver Marizel. Parei e preparei tudo para traze-la at\u00e9 onde eu estava. Nesse momento ouvi Marizel dizer: Vou cair! Ouvi exclama\u00e7\u00f5es mais abaixo e presumi que Marizel tivesse ca\u00eddo mesmo, ficando presa pela corda de seguran\u00e7a. Prendi a corda onde estava e caminhei com cuidado para onde ela estava, Marizel passou a orientar-me, auxiliada por outras pessoas que estavam mais abaixo. Marizel informou-me que havia um plat\u00f4 logo abaixo, pr\u00f3ximo de onde estava, em que ela poderia ficar mais tranq\u00fcila. Voltei, soltei o n\u00f3 de minha corda e desci at\u00e9 atingir um plat\u00f4. Vi que n\u00e3o havia o exato plat\u00f4 indicado por Marizel, mas apenas uma pequena rampa onde ela poderia descansar e esperar por socorro. Desci mais a corda de Marizel, toda a que dispunha, inclusive a minha de seguran\u00e7a. Prendi a corda num grampo, deixando Marizel na rampa. N\u00e3o tinha uma vis\u00e3o n\u00edtida de onde ela estava, pois havia uma lombada entre n\u00f3s. Da\u00ed fui para o Olho Direito aguardar o socorro. Subi sem meu material de seguran\u00e7a, que ficara todo com Marizel para sua seguran\u00e7a. Ela estava cerca de 25 metros de dist\u00e2ncia. Acho que Marizel desmaiou, pois depois de determinado momento parou de me orientar. Acho que ela caiu por volta de duas e meia. Infelizmente, quando chegou o Corpo de Salvamento, ela j\u00e1 estava morta. Marizel n\u00e3o era uma principiante, fizera escaladas de grau superior ao da Pedra da G\u00e1vea, como o Mirante Dona Marta e o Pared\u00e3o Unicec. Acho que foi v\u00edtima de uma interma\u00e7\u00e3o ou desidrata\u00e7\u00e3o, o que diminuiu sua resist\u00eancia f\u00edsica.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem diferente \u00e9 o registro da ocorr\u00eancia feito pelo Capit\u00e3o Paulo C\u00e9sar Am\u00eandola de Souza, da Pol\u00edcia Militar, lotado no Servi\u00e7o de Recursos Especiais do DGIE. Segundo o registro, Marizel e Geraldo seriam do Grupo de Expedi\u00e7\u00e3o Fen\u00edcios, da Academia Leopoldinense de Jud\u00f4. Marizel teria morrido em decorr\u00eancia de uma queda de grande altura, \u201cap\u00f3s o rompimento da corda de sustenta\u00e7\u00e3o\u201d (?). O capit\u00e3o Am\u00eandola \u00e9 amigo de ambas as fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Reportagem de Jos\u00e9 Esmeraldo Gon\u00e7alves e Lia Hermont<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marisa j\u00e1 caiu no mesmo lugar que Marizel. Ela acha que a jovem morreu por ser corajosa e inexperiente: fez a travessia sem o equipamento necess\u00e1rio. \u201cEssa escalada exige um grupo m\u00ednimo de tr\u00eas pessoas\u201d, diz ela.<br \/>\nA montanhista Marisa Aguiar caiu h\u00e1 cinco anos no mesmo local da Pedra da G\u00e1vea em que Marizel morreu. Com mais de 10 anos de experi\u00eancia na \u00e9poca, ela sobreviveu para contar a hist\u00f3ria: \u201cMarizel morreu por ter sido muito corajosa. Quando ca\u00ed, um pouco mais perto do ponto conhecido como Olho Direito do Imperador, estava bem mais protegida. Tinha dois guias, meu marido e um amigo. Sabia que a via (local por onde se deve passar, trilha) era mais perigosa do que dif\u00edcil. Sempre que achava que ia cair, avisava: \u201cVou cair\u201d. At\u00e9 que numa barriga (lombada), perdi o equil\u00edbrio e ca\u00ed mesmo. Gritei: \u201cEstou caindo\u201d. E ca\u00ed. A sensa\u00e7\u00e3o que a gente tem \u00e9 de vazio, depois, de um soco. A corda presa na cintura passa para cima e comprime as costelas. \u00c9 uma dor horr\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O pre\u00e7o da inexperi\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marisa caiu cerca de um metro, e quase desmaiou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cImagino que Marizel, ao cair de uns tr\u00eas metros (\u00e9 o que calculo), tenha sentido uma dor bem maior. Inexperiente, n\u00e3o deve ter segurado a corda, preferindo com vez disso solt\u00e1-la para amortecer o choque com a pedra.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Marisa, uma pessoa que n\u00e3o tem experi\u00eancia quase sempre entra em p\u00e2nico. \u201cEla deve ter se sentido s\u00f3 e desamparada, pois sabia que o rapaz n\u00e3o era ta experiente, e n\u00e3o havia ningu\u00e9m atr\u00e1s para ajud\u00e1-la.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio Aguiar, o marido de Marisa, \u00e9 um dos pioneiros em escaladas na Pedra da G\u00e1vea, principalmente pela via do Olho do Imperador. Diante das fotos da subida de Geraldo e Marizel, ele fala do acidente. \u00c9 um depoimento de quem, segundo os entendidos, poderia escalar o local de olhos fechados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A morte por asfixia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa via da Pedra da G\u00e1vea \u00e9 muito dif\u00edcil mas n\u00e3o \u00e9 perigosa. D\u00e1 at\u00e9 para posar para as fotos.<br \/>\n\u201cPelas fotos, pode-se ver que os dois eram inexperientes. H\u00e1 ganchos nas rochas, seguindo a via, que servem para apoiar os lagartixas (montanhistas). A gente costura os ganchos, usando mosquet\u00f5es. Assim, todos os componentes de uma cordada ficam seguros, e se um cai, forma um \u00e2ngulo, facilitando o seu salvamento pelos guias ou pelas pessoas que estejam ao seu lado. Tenho a impress\u00e3o de que a corda dos dois n\u00e3o estava costurada, sen\u00e3o ela n\u00e3o daria um mergulho t\u00e3o grande, pois os ganchos ficam a uma dist\u00e2ncia de dois metros, mais ou menos, um do outro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio explica que esse tipo de escalada exige pelo menos tr\u00eas pessoas. Dois, s\u00f3 com muita experi\u00eancia, e mesmo assim \u00e9 arriscado. Quando se trata de uma pessoa inexperiente, o guia procura sempre fazer uma esp\u00e9cie de cadeira com corda, para evitar o soco estrangulador da queda. Isso quando n\u00e3o se disp\u00f5e de equipamento especializado, que \u00e9 muito dif\u00edcil de encontrar no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPelo que vi, a garota estava com uma corda amarrada na cintura, o que pode ter apressado ou mesmo causado a sua morte. Na verdade, Marizel morreu por asfixia, devido \u00e0 press\u00e3o da corda em suas costelas.<br \/>\n<em><br \/>\nReportagem de Jos\u00e9 Esmeraldo Gon\u00e7alves e Lia Hermont<\/em><\/p>\n<p>Mat\u00e9ria retirada da revista Fatos e Fotos Gente, n\u00b0 745 &#8211; ano XV de 1 de dezembro de 1975<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A jovem alpinista da Pedra da G\u00e1vea, um minuto antes da queda. clique aqui para acessar a vers\u00e3o para impress\u00e3o em PDF Estava escuro quando Marizel se levantou naquele s\u00e1bado. 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