{"id":554,"date":"2012-09-03T16:38:45","date_gmt":"2012-09-03T20:08:45","guid":{"rendered":"http:\/\/ceguanabara.wordpress.com\/?p=554"},"modified":"2012-09-03T16:38:45","modified_gmt":"2012-09-03T20:08:45","slug":"900-metros-sem-grampo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guanabara.org.br\/index.php\/2012\/09\/03\/900-metros-sem-grampo\/","title":{"rendered":"900 Metros sem Grampo"},"content":{"rendered":"<p>Sempre quis conhecer as famosas, imensas, remotas e desafiadoras montanhas do Esp\u00edrito Santo. Por conta do ponto facultativo da Rio+20, eu teria cinco dias livres e tinha decidido aproveitar para escalar em algum lugar distante.<\/p>\n<p>Inicialmente programamos a viagem para o Marumbi mas, por conta da p\u00e9ssima previs\u00e3o de tempo, decidimos ir para o Esp\u00edrito Santo. Como l\u00e1 existem muitas op\u00e7\u00f5es e eu n\u00e3o conhecia nenhuma, o Wal bateu o martelo e fomos para Afonso Claudio. A ideia seria conhecer os Tr\u00eas Pont\u00f5es e depois os Cinco Pont\u00f5es.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o numa quarta-feira sa\u00edmos de manh\u00e3 e, ap\u00f3s longas dez horas de viagem, chegamos. Ufa, realmente o lugar \u00e9 longe e as estradas n\u00e3o ajudam.<\/p>\n<p>No primeiro dia livre fomos para os Tr\u00eas Pont\u00f5es, bem pr\u00f3ximos da cidade de Afonso Claudio. Que forma\u00e7\u00e3o incr\u00edvel! Um complexo rochoso \u00edngreme despontando no meio de pequenos morros com planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9. T\u00ednhamos a inten\u00e7\u00e3o modesta de fazer uma via curta em um sat\u00e9lite de um dos pont\u00f5es do lado sul. Mas quando cheguei na base, que era bem alta em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto, comecei a investigar o local. Acabei encontrando uma passagem para a face norte e em seguida a via de conquista do pont\u00e3o maior. Fiquei impressionado com a via, conquistada na d\u00e9cada de 70 e sem prote\u00e7\u00f5es fixas. Do ponto que estava, faltava fazer uma chamin\u00e9 aparentemente f\u00e1cil para chegar ao cume. Chamei o Wal e propus subirmos um pouco por ali mas sabia que poderia n\u00e3o encontrar grampo para descer. Pude fazer o in\u00edcio da incr\u00edvel chamin\u00e9, mas por conta de ter pouca informa\u00e7\u00e3o, decidimos n\u00e3o prosseguir por ela. Mas encontrei um grampo em outra dire\u00e7\u00e3o e logo mais outros dois parecendo um pequeno artificial. Subi por ali e percebi que levava para o cume menor da forma\u00e7\u00e3o, ou seja, um cume bem acess\u00edvel. Logo chamei o Wal e tocamos para esse cume. Que bacana o visual dali&#8230;<\/p>\n<p>No outro dia a programa\u00e7\u00e3o seria conhecer os Cinco Pont\u00f5es. S\u00e3o um pouco mais distantes, tendo que andar por v\u00e1rias estradas de terra. Foi importante estarmos com a poderosa Toyota do Wal. A vis\u00e3o das montanhas foi ainda mais surpreendente por serem maiores. Quer\u00edamos subir para o pont\u00e3o maior, visto que s\u00f3 t\u00ednhamos um dia e esse era o cume mais acess\u00edvel.<\/p>\n<p>Iniciamos a aproxima\u00e7\u00e3o por uma suposta trilha paralela aos pont\u00f5es e perdemos algum tempo tentando encontrar uma passagem. Acabamos desistindo desse acesso e voltamos. Por conta do hor\u00e1rio, at\u00e9 pensamos em desistir. Descansamos um pouco e curtimos o local com paredes enormes e com incr\u00edvel potencial para conquistas.<\/p>\n<p>Resolvemos prosseguir costeando os pont\u00f5es e conhecer melhor o local. Passamos por todos eles: Foca, filhote de Foca, L\u00edngua de Boi, Pont\u00e3o Rachado e finalmente o Pont\u00e3o Maior. Da face que est\u00e1vamos, os \u00faltimos se confundem, parecem fazer parte do mesmo complexo.<\/p>\n<p>Ao final, j\u00e1 supostamente em frente ao Pont\u00e3o Maior, a pedra apresentava uma inclina\u00e7\u00e3o suave, bem atraente. Mas n\u00e3o havia informa\u00e7\u00e3o sobre via ali, ter\u00edamos que subir onde fosse poss\u00edvel, sem prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O dia tinha come\u00e7ado nublado e fresco, mas nessa hora o c\u00e9u estava aberto e quente. O visual estava incr\u00edvel e tiramos muitas fotos.<\/p>\n<p>Encontramos dois grampos e decidimos investir por ali. O cost\u00e3o era f\u00e1cil, avan\u00e7amos uns 100 m mas n\u00e3o encontramos mais grampos. Continuamos avan\u00e7ando por mais cerca de 200 m sem problema.<\/p>\n<p>Depois come\u00e7aram a aparecer alguns lances mais dif\u00edceis e comecei a pensar se seria poss\u00edvel desescalar. N\u00e3o sab\u00edamos exatamente se est\u00e1vamos seguindo na crista correta para o cume do Pont\u00e3o Maior, ent\u00e3o, em princ\u00edpio, ter\u00edamos que descer pelo mesmo lugar.<\/p>\n<p>Em seguida me deparei com um trecho que sabia que n\u00e3o poderia desescalar sem prote\u00e7\u00e3o. Fiquei preocupado com a descida. Mas como um pouco acima havia uma vegeta\u00e7\u00e3o um pouco maior, subi contando que poderia us\u00e1-la para passar a corda e ter um apoio na descida.<\/p>\n<p>Outro problema que t\u00ednhamos era o hor\u00e1rio. Como durante muito tempo pensamos que n\u00e3o far\u00edamos o cume, desperdi\u00e7amos o tempo e acabamos iniciando a subida por volta de 14h, j\u00e1 muito tarde. Apesar de estarmos avan\u00e7ando rapidamente, uma eventual descida demandaria muito mais tempo por conta de ser preciso desescalar tudo.<\/p>\n<p>Mais \u00e0 frente, j\u00e1 muito alto e com o final do dia se aproximando, conclu\u00ed que n\u00e3o poder\u00edamos descer por ali naquele dia. N\u00e3o ter\u00edamos tempo suficiente. E como n\u00e3o havia nenhum plat\u00f4 grande o suficiente para passarmos a noite, ter\u00edamos que subir de qualquer jeito. E assim continuamos.<\/p>\n<p>Mas logo apareceram trechos mais delicados, por\u00e9m, sem vegeta\u00e7\u00e3o acima. Caramba, como faremos para descer por aqui?? N\u00e3o faz\u00edamos paradas, n\u00e3o gastamos tempo com manuseio de corda, ancoragens, montagem de seguran\u00e7a, coloca\u00e7\u00e3o e recolhimento de costuras. Apenas sub\u00edamos, parando somente alguns segundos para recuperar o f\u00f4lego. Mas mesmo ap\u00f3s horas nesse ritmo ainda n\u00e3o pod\u00edamos ver o final, o cume.<\/p>\n<p>Certa hora, finalmente, mas ainda distante, ele apareceu. Al\u00edvio? Que nada! Me deparei com uma crista com cerca de 50m, bem estreita e totalmente sem vegeta\u00e7\u00e3o para escalar. O local era bem impressionante. N\u00e3o havia outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o subir, ent\u00e3o n\u00e3o pensei muito. Simplesmente me concentrei e escalei, devagar mas sem parar e sem olhar para baixo. Ao final sabia que n\u00e3o poderia descer por ali desescalando. Seria preciso encontrar outra descida&#8230;<\/p>\n<p>Mais alguns trechos mais ou menos problem\u00e1ticos e cheguei no cume. Logo percebi que n\u00e3o est\u00e1vamos no Pont\u00e3o Maior, mas num outro cume um pouco mais baixo. E rapidamente encontrei um grampo antigo. Eram cerca de 16h30, n\u00e3o t\u00ednhamos muito tempo de luz. O outro lado do cume era muito \u00edngreme, vertiginoso mesmo. Al\u00e9m do Pont\u00e3o Maior v\u00edamos outras agulhas incr\u00edveis. Descansei um pouco, percebi que n\u00e3o tinha bebido \u00e1gua na subida, apesar do calor. E tamb\u00e9m n\u00e3o tinha muita \u00e1gua. O Show e Fernando chegaram.<\/p>\n<p>Decidimos descer pelo grampo e tentar encontrar uma outra descida. O Wal desceu primeiro e come\u00e7ou a investigar as possibilidades. Inicialmente pensamos em descer o grot\u00e3o que separa os dois cumes, mas sab\u00edamos que ele n\u00e3o ia at\u00e9 o in\u00edcio da montanha e em algum ponto poder\u00edamos n\u00e3o conseguir continuar a descer.<\/p>\n<p>Wal encontrou, ent\u00e3o, uma passagem para a crista do Pont\u00e3o Maior e concluiu que poder\u00edamos subir at\u00e9 o cume e descer pela sua rota normal. O sol estava a ponto de sumir e ainda tinha um trecho delicado para subir. Naquela hora n\u00e3o tinha tempo para hesitar, ent\u00e3o subi e parei em uma \u00e1rvore razo\u00e1vel e chamei os demais. A seguir parecia que seria o trecho final. Subi um pouco e vi que um pouco acima &#8211; a inclina\u00e7\u00e3o era demais para tentar sem seguran\u00e7a (um 5\u00ba no m\u00ednimo). A \u00fanica alternativa seria fazer uma grande horizontal e tentar encontrar um trecho mais acess\u00edvel.<\/p>\n<p>Segui por uns 5m e vi ainda a uns 15m alguma estrutura artificial. Resolvi continuar nessa dire\u00e7\u00e3o. Escalando mais 5 m, me pareceu um cabo de a\u00e7o de para-raio. Mais 5m vi tamb\u00e9m uns vergalh\u00f5es e parecia uma escada. Mais um pouco e cheguei no tal degrau. Ufa!!! J\u00e1 estava quase escuro. Subi at\u00e9 o final e montei a seguran\u00e7a para os outros. Avisei que a seguran\u00e7a era boa e todos vieram, alguns j\u00e1 com headlamp.<\/p>\n<p>Finalmente pudemos relaxar. Ainda n\u00e3o sab\u00edamos como seria a descida mas o fato de ter uma rota segura mudou bastante o \u00e2nimo. Tiramos fotos, bebemos os \u00faltimos goles de \u00e1gua e come\u00e7amos a descer os infinitos degraus. Depois ficamos sabendo que eram mais de 150. Em seguida uma trilha bem marcada. Ainda bem pois j\u00e1 era noite. Sab\u00edamos que a Toyota ficara no lado oposto dos pont\u00f5es, ent\u00e3o est\u00e1vamos bem longe. O GPS calculou uma rota de retorno por estradas de terra, mas faltavam 8km para caminhar. Ningu\u00e9m reclamou, afinal n\u00e3o tinha mais risco. Est\u00e1vamos cansados e desidratados mas em seguran\u00e7a. Levamos quase tr\u00eas horas caminhando, sem pressa naquelas estradinhas desertas.<\/p>\n<p>Ao chegar em casa fui revisar a rota que subimos: foram cerca de 900m&#8230; sem grampos.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><strong>Boris Flegr<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre quis conhecer as famosas, imensas, remotas e desafiadoras montanhas do Esp\u00edrito Santo. Por conta do ponto facultativo da Rio+20, eu teria cinco dias livres e tinha decidido aproveitar para escalar em algum lugar distante. 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