Invasão Feminina em 2012: o espírito do tempo

Por diversas razões tenho andado longe do Guanabara, mas para mim, quando chega a Invasão Feminina é hora de juntar a mulherada e seguir para a pedra. E assim fizemos.

Esse ano a Invasão foi em um lindo domingo, 11 de março.  E para o Guanabara, creio que foi um momento especial para mulheres e homens. Apesar de ser bem frequentado e representado na ala feminina, teve um tempo que o mulherio guanabarino não andava mais coladinho na rocha, o que de certa forma refletia o montanhismo como um todo. E também, de um modo geral, a forte presença masculina é uma das características do nosso esporte. Porém já podemos perceber que isto vem mudando bastante. E no CEG não é diferente!

A cada ano aumenta o número de meninas que escalam juntas na Invasão e ao longo do ano. Lembro que na minha primeira Invasão, em 2009, fomos umas cinco ou seis. Infelizmente não pude participar em 2010, mas as meninas guanabarinas estavam lá. Em 2011 fomos dez escaladoras e agora em 2012, fizemos sete cordadas e uma caminhada no Costão. Foram 15 de nós escalando ou caminhando, além, claro, das agregadas que apareceram para colorir ainda mais o Coloridos.

Para mim a Invasão Feminina é o evento do montanhismo carioca. Não que os outros eventos não tenham importância; pelo contrário. Neste ano tivemos a Semana Brasileira de Montanhismo (SBM), que certamente será um marco no montanhismo brasileiro. Estou falando de uma importância subjetiva: é a minha opinião mesmo! Para mim este é o evento mais divertido e emocionante de todos. E apesar de ser uma festa de celebração da mulher, os homens também podem e devem participar. Pelo que conheço da história do evento, desde o início há a participação dos “meninos”, que usam perucas, “mudam” de nome, vestem saias, não para se travestirem, mas para curtirem o espírito do evento. Amigos, namorados, filhos, maridos estão lá conosco, naquilo que eu considero que deva ser o espírito da igualdade entre os gêneros: mulheres em seu momento especial, em seu momento de assumir a primeira posição e com “seus homens queridos” apoiando, dando aquela força, que às vezes é por serem os guias, às vezes por serem os guiados. Com isto não quero dizer que a posição de destaque é sempre da mulher. Ao contrário: acho este um exemplo de como nós mulheres também devemos estar dispostas a apoiar nossos amigos, maridos, namorados, filhos e, congêneres quando o momento de brilhar for deles. Aliás, acho que o espírito verdadeiro são homens e mulheres apoiando uns aos outros, sempre que for preciso, sem medo e conscientes de que mesmo com nossas diferenças biofísicas somos lados de uma mesma moeda, um não existe sem o outro.

Este ano me dei conta disso quando vi uma parede de homens enfileirados disputando um lugar para fotografar aquelas 200 mulheres reunidas para serem fotografadas. Fiquei pensando: se eles não estivessem ali, como nós poderíamos estar aqui?”. Por mais legal que seja encontrar as amigas e fofocar, o que mais gosto na Invasão Feminina é porque não é exclusivamente um evento de celebração entre/ou das mulheres, é uma celebração dos montanhistas, em um momento de reconhecimento da importância da valorização do papel que as mulheres desempenham neste esporte e na vida de cada um de nós.

E pra não dizer que não falei das flores, a Adriana Mello, como sempre organizou um evento impecável, que demostra justamente como informalidade e liberdade podem ser a base de uma grande festa e de um grande processo de mudança. Certamente ela é quem melhor representa este espírito que mencionei acima. E por isso, uma gratidão imensa pelo seu empenho em fazer este evento todos os anos.

Elizete Ignácio

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Muitas “primeiras” para um dia só

“Te falar, que invasão, hein?” Vou lembrar dela por um bom tempo, pois na minha primeira escalada na invasão feminina, completei a minha primeira via guiando, pela primeira vez com uma acompanhante que (ainda!) não guia (que por sinal era a minha primeira parceira no CBM) e, como brinde, paguei a minha primeira queda de guia. Uhu! Pior que ela não foi nada espetacular e mesmo assim me deixou toda arranhada. E nem dá pra passar um batom na história e complementá-la com alguns detalhezinhos selvagens para tirar onda na quinta – todo mundo viu! Mas fazer o quê? Valeu! Porque meninas, escalar é muito bom. Melhor ainda em boa companhia, seja homem, mulher, ou aquela lagartixa básica que passa pela gente com um sorriso sacana dizendo “e aí, mané, tá passando perrengue por quê?!”.

A minha parceira foi excelente e a estrutura incomparável. Thaís levou o kit de primeiros socorros da Flávia (o meu tinha ficado com Alfa) para consertar minimamente o joelho. A Inês deixou uma parada para gente fugir do engarrafamento (quatro cordadas numa via de dois esticões, fazer o quê, ne?). Mas o mais engraçado foi a conversa com a Monique que estava guiando a Flávia, bem do lado, na Arco-Íris. Monique: “Puxa, ela falou que estava mal pra escalar e agora sobe tão rápido que nem dá pra tirar a barriga da corda!”. Julia: “Nem quero imaginar a bronca que vou levar da Alfa por ter caído na corda dela.” Monique: “Esquenta não, nem foi fator 2.ahahahaha!”.

Enfim, gente, adorei o dia: chegar cedo na Urca, encontrar amigos que não vejo faz tempo. Ver a galera do novo CBM chegando para o primeiro campo escola com escalada. Subir (depois de meses sem poder chegar perto de uma pedra), cair, passar o susto e ver que não tem nada demais, e aí subir logo de novo. Chegar na gruta na maior paz e ainda – eis outra primeira vez – fazer a trilha pro cume (valeu Inês). Como brinde demos uma visitinha na face norte para prestigiar os parceiros que estavam “trabalhando” e apoiar os novatos que estão na mesma que a gente, quando há um ano atrás.

Na descida ainda encontramos com Dani e Carlos que haviam acabado de fazer o costão.

Julia Stadler

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Kmon, Mulherada

Mesmo com essa alegria de ver a invasão feminina crescendo, acreditamos que vale um apelo político: “Meninas, cadê nós ao longo do ano? Cadê as cordadas naturalmente femininas?” É difícil acreditar que com tanta mulher no clube passamos perrengue para fechar as cordadas na invasão. A gente começou a guiar faz pouco tempo, mas estamos treinando a mil para ganhar um convite pro CAE.

Inclusive acabamos de voltar da Fon-Fon no Babilônia. A nossa primeira cordada feminina de 3!! Inês guiou Alfacinha e Julia. Foi excelente. Pela primeira vez a Inês guiou e deu segurança com corda dupla. Alfa deu uma aula pra gente, dando dicas para podermos melhorar a nossa escalada e ampliar a noção de como ler a via. E no final, como já estava bem tarde, garantiu que mesmo no escuro o rapel não se tornasse perrengue. Descemos com a lanterninha no capacete, sem sequer enxergar o grampo. De novo no chão, a correria foi para chegar na hora à portaria do bondinho, que também conseguimos. Ainda rolou um papo em alemão com o rapaz que trabalha lá e viveu cinco anos na Alemanha. Enfim, só dá pra acrescentar que a escalada foi 10!

Meninas, um conselho: “não dá pra reclamar que escalar é difícil quando ficamos meses sem treinar”. Como a Alfa falou, bem na segunda parada, “a atividade física que melhor te prepara para escalar é a própria escalada”! Julia ficou quatro meses sem tocar na pedra, queria morrer no segundo grampo, fugiu do 5°grau, mas fez a variante de 4°. É isso, voltar é fogo, mas daqui a pouco passa…

Então, muié, vamos escalar? Vamos ralar os joelhos sem medo de ficar com as pernas feias. A invasão feminina acabou e não vamos deixar outro ano passar pra encontrar-nos na pedra!

Julia Stadler e Inês

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